Etnotecnologia: quando os saberes tradicionais também fazem ciência

Quando pensamos em tecnologia, é comum imaginarmos computadores, inteligência artificial, robôs ou equipamentos modernos. Mas será que tecnologia é apenas aquilo que nasce nos laboratórios e nas indústrias? A resposta é não.

Muito antes da invenção dos celulares ou da internet, diferentes povos já desenvolviam técnicas sofisticadas para plantar, pescar, caçar, construir moradias, produzir alimentos, fabricar ferramentas e utilizar os recursos da natureza de forma sustentável. Esses conhecimentos, construídos ao longo de gerações, são exemplos do que hoje chamamos de etnotecnologias.

Afinal, o que é etnotecnologia?

A palavra une dois conceitos: “etno”, que se refere aos povos e às culturas, e “tecnologia”, entendida como o conjunto de técnicas e conhecimentos utilizados para resolver problemas do cotidiano.

Na prática, a etnotecnologia reúne os saberes desenvolvidos por comunidades tradicionais a partir da observação da natureza, da experimentação e da experiência compartilhada entre gerações. São soluções criadas para responder às necessidades locais, muitas vezes sem depender da ciência formal, mas que revelam um profundo conhecimento sobre o ambiente.

Essas tecnologias podem ser encontradas em diferentes partes do mundo: nos sistemas tradicionais de agricultura, nas embarcações artesanais, nos moinhos movidos pela água, nas técnicas de construção com materiais naturais, nos remédios produzidos a partir de plantas medicinais e em inúmeras outras práticas culturais.

Nessa perspectiva, reconhecer a tecnologia como uma construção social e cultural amplia a compreensão sobre sua origem, evidenciando que ela se desenvolve a partir dos diferentes modos de fazer construídos pelos povos ao longo da história, incluindo as comunidades culturalmente tradicionais. Assim, as técnicas desenvolvidas localmente passam a ser reconhecidas como etnotecnologias.

A etnotecnologia também pode ser compreendida como o estudo das relações entre os saberes e as técnicas desenvolvidos pelos diferentes grupos étnicos e culturais, considerando seus contextos históricos, sociais e ambientais. Sob essa perspectiva, ela manifesta-se em diversos domínios da vida humana, como nas produções artesanais, nos hábitos alimentares, nos sistemas tradicionais de saúde, nos processos educativos locais, entre outras práticas culturais.

Durante muito tempo, porém, essas formas de produzir conhecimento receberam pouca atenção. A ideia de tecnologia ficou fortemente associada às grandes invenções industriais e aos avanços científicos modernos, deixando em segundo plano as soluções criadas por povos tradicionais. Hoje, pesquisadores defendem uma visão mais ampla, reconhecendo que diferentes culturas também produzem tecnologia e inovação.

Etnotecnologia no ensino de ciências

Você já parou para pensar que a ciência também está presente nos conhecimentos tradicionais de diferentes comunidades?

Em muitas escolas, o ensino de Ciências ainda acontece de forma muito teórica, distante da realidade dos estudantes. Quando isso acontece, conceitos científicos podem parecer abstratos e difíceis de compreender. Mas a ciência também pode ser aprendida a partir das experiências, práticas e tecnologias desenvolvidas pelas próprias comunidades ao longo do tempo.

Diversos povos construíram técnicas para plantar, pescar, caçar, navegar e utilizar os recursos naturais com base na observação da natureza e nos conhecimentos transmitidos entre gerações. Essas práticas, conhecidas como etnotecnologias, fazem parte do patrimônio cultural dessas comunidades e representam formas legítimas de produzir conhecimento.

Além de preservar a cultura e a memória dos povos, as etnotecnologias podem se tornar grandes aliadas do ensino de Ciências. Elas ajudam a aproximar os conteúdos escolares da realidade dos estudantes, tornando a aprendizagem mais significativa. Essa abordagem é especialmente importante em escolas que possuem poucos recursos, como a ausência de laboratórios de Ciências, mostrando que é possível aprender conceitos científicos a partir dos conhecimentos presentes no próprio território.

Veja um exemplo de ectnotecnologia  para a produção de bebida alcoólica tradicional em África https://www.youtube.com/shorts/Y9x7247c-bo?feature=share

A ciência pode ser ensinada a partir dos conhecimentos construídos por diferentes povos e culturas. Um exemplo inspirador vem de um estudo realizado por Jossias Domingos e colaboradores (2024), que investigou uma tradicional técnica de caça utilizada pelo povo Tchokwe, em Angola.

Os pesquisadores analisaram a armadilha conhecida como muheto e mostraram que seu funcionamento envolve conceitos da Física, como as forças que atuam durante o disparo do mecanismo. Em outras palavras, um conhecimento desenvolvido ao longo de gerações por esse povo também pode ser compreendido por meio da linguagem científica.

Fonte: Domingos et al. (2024)

A pesquisa revela que tecnologias tradicionais carregam conhecimentos sofisticados sobre o funcionamento da natureza e podem se tornar excelentes recursos para o ensino de Ciências. Ao relacionar os conteúdos escolares com práticas culturais locais, os estudantes conseguem perceber que a ciência não está presente apenas nos laboratórios, mas também nas experiências e saberes construídos por diferentes comunidades.

Essa perspectiva amplia nossa compreensão sobre o que entendemos por tecnologia. Em vez de associá-la apenas a equipamentos modernos ou inovações industriais, a etnotecnologia valoriza os conhecimentos técnicos desenvolvidos por diferentes povos, reconhecendo sua criatividade, sua história e sua relação com o ambiente.

Como destaca o pesquisador Chidi Oguamanam (2023), é importante que o desenvolvimento tecnológico reconheça e respeite os sistemas africanos de conhecimento, em vez de interpretar essas tecnologias apenas pelos referenciais da ciência ocidental. Assim, experiências como a do povo Tchokwe mostram que tradição e ciência podem caminhar juntas, enriquecendo a educação e promovendo uma visão mais diversa, inclusiva e plural sobre a produção do conhecimento.

Além disso, um dos pioneiros nessa discussão foi o pesquisador José Ribamar Bessa Freire (2004), que destacou como as línguas, as culturas e as tecnologias dos povos indígenas fazem parte de um mesmo patrimônio de conhecimentos e podem contribuir para uma educação mais intercultural. Na mesma direção, a pesquisadora Edna Castro (2010) propôs compreender a etnotecnologia como um campo dedicado ao estudo das técnicas e tecnologias desenvolvidas por diferentes povos em seus próprios contextos culturais.

Outro estudo importante foi desenvolvido por João Batista Ferreira (2015), em sua tese Etnotecnologia na educação escolar indígena: um estudo de caso na aldeia Tiracambu dos Wapixana. Nessa pesquisa, o autor investigou como a etnotecnologia pode ser utilizada como recurso pedagógico para valorizar os saberes tradicionais e fortalecer a identidade cultural de estudantes indígenas. Os resultados mostram que aproximar os conhecimentos da comunidade dos conteúdos escolares torna a aprendizagem mais significativa e contribui para o reconhecimento das diferentes formas de produzir conhecimento.

As etnotecnologias presentes nas comunidades, especialmente em diferentes regiões da África, mostram que o conhecimento científico também pode ser construído a partir das experiências e práticas culturais locais. Por isso, elas representam um importante recurso didático para o ensino de Ciências, tanto nas salas de aula quanto em museus, centros culturais e outros espaços educativos não formais. Desenvolvidas ao longo da história, essas tecnologias revelam formas próprias de observar, interpretar e interagir com os fenômenos naturais, criando oportunidades para aproximar os conhecimentos tradicionais dos conhecimentos científicos.

Apesar de sua riqueza, esses saberes foram, durante muito tempo, invisibilizados ou considerados menos importantes pela ciência moderna (Jovchelovitch, 2004). Como consequência, ainda é comum que o ensino de Ciências seja desenvolvido de maneira predominantemente teórica, com poucas conexões entre os conteúdos escolares e a realidade cultural dos estudantes. Isso dificulta a contextualização da aprendizagem e reduz o reconhecimento das tecnologias tradicionais preservadas pelas comunidades.

A pesquisadora Odora (2002, p. 38) chama atenção para esse desafio ao afirmar que “a ciência moderna precisa reconhecer que ela é apenas uma entre muitas formas de conhecer o mundo. A monocultura do saber é um projeto excludente.” Essa reflexão nos convida a pensar em uma educação científica mais aberta ao diálogo entre diferentes formas de conhecimento.

Nessa perspectiva, pesquisadores como Rosa e Orey (2023) defendem que o ensino de Ciências, especialmente em comunidades culturalmente tradicionais, deve considerar não apenas os conceitos científicos, mas também os aspectos culturais que fazem parte da vida dos estudantes. Isso fortalece a participação da comunidade na escola e transforma práticas tradicionais em oportunidades de aprendizagem.

Uma armadilha de caça, um moinho movido pela água, uma técnica agrícola ou um processo artesanal de produção de alimentos podem funcionar como verdadeiros “minilaboratórios didáticos”. Ao investigar essas tecnologias locais, os estudantes aprendem Ciências a partir de situações concretas do seu cotidiano, percebendo que tradição, cultura e ciência podem caminhar juntas.

Para refletir…

As etnotecnologias nos mostram que a ciência não está presente apenas nos laboratórios ou nas universidades. Ela também pode ser encontrada nos conhecimentos construídos por povos e comunidades que, ao longo de gerações, aprenderam a observar a natureza, resolver problemas e desenvolver tecnologias próprias para o seu cotidiano.

Quando esses saberes chegam à escola, o ensino de Ciências torna-se mais próximo da realidade dos estudantes, valorizando suas histórias, suas culturas e seus modos de compreender o mundo. Mais do que facilitar a aprendizagem, essa aproximação fortalece uma educação intercultural, inclusiva e comprometida com o reconhecimento da diversidade de conhecimentos existentes na sociedade.

Além de enriquecer as aulas, as etnotecnologias também aproximam a ciência da população. Ao compreender como funcionam um moinho tradicional, uma armadilha de caça, uma técnica agrícola ou um processo artesanal de produção de alimentos, percebemos que esses conhecimentos envolvem princípios científicos e podem despertar a curiosidade de crianças, jovens e adultos.

Reconhecer o valor das etnotecnologias é, portanto, ampliar nosso próprio conceito de ciência e de tecnologia. Significa compreender que diferentes povos produzem conhecimento e que essas experiências podem dialogar com a ciência escolar de forma respeitosa e complementar.

E fica um convite para a reflexão: como as etnotecnologias podem transformar o ensino de Ciências em comunidades africanas, indígenas, quilombolas e em outros territórios onde os saberes ancestrais continuam vivos? Talvez a resposta esteja justamente em reconhecer que a inovação nem sempre nasce do novo, mas também da valorização de conhecimentos que atravessaram gerações e continuam ensinando diferentes maneiras de compreender o mundo.

Autor: Jossias João Domingos (jossiasjd87@gmail.com)
Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, Brasil.
https://orcid.org/0009-0003-0924-3420

Autor: Marcelo Borges Rocha (marcelo.rocha@cefet-rj.br)
Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, Brasil.
https://orcid.org/0000-0003-4472-7423

Edição: Mariana Vallis (vallismariana@gmail.com)
Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, Brasil.
ttps://orcid.org/0000-0001-8498-8607

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