Um fruto em forma de livro: a horta como inovação pedagógica

Publicação e vídeo apresentam a horta escolar como tecnologia social para integração curricular e educação socioambiental

Uma experiência desenvolvida ao longo de sete anos em uma escola pública do Rio de Janeiro dá origem a um livro e a um vídeo que levam a horta ao centro do debate sobre inovação pedagógica. A obra Hortas Pedagógicas: Receitas para cultivar a interdisciplinaridade nas escolas sistematiza práticas educativas que articulam ensino, território e sustentabilidade, enquanto o vídeo amplia a divulgação dessa trajetória por meio de narrativas visuais.

Realizado junto à Escola Municipal GET Pedro Ernesto, o projeto parte de uma questão recorrente na educação básica: como integrar áreas do conhecimento sem fragmentar o currículo. A resposta construída coletivamente por educadores, pesquisadores e estudantes foi tratar a horta como um laboratório vivo, capaz de organizar situações de aprendizagem que conectam diferentes disciplinas em torno de problemas concretos (Yllas, 2023).

Horta como laboratório vivo

Na experiência sistematizada, a horta foi concebida como eixo estruturante das práticas ecopedagógicas. Em um mesmo canteiro, estudantes observam processos ecológicos, realizam medições, produzem registros e discutem questões relacionadas à alimentação, à cultura e aos problemas socioambientais. Nesse contexto, a Natureza se afirma como mestra, em diálogo com a perspectiva de Rufino (2021). A experiência também abre caminhos para a cocriação de hortas em outras escolas, ampliando os laboratórios vivos e fortalecendo práticas educativas em que o aprender se constrói com a terra.

Esse tipo de abordagem dialoga com campos da educação ambiental crítica, a ecopedagogia,  e a agroecologia, articulando-se também às metodologias ativas e aos estudos sobre aprendizagem significativa. Ao propor que o conhecimento seja construído em contextos reais, a partir da interação entre sujeitos, ambiente e problemas concretos, a horta mobiliza estratégias como investigação, experimentação, trabalho colaborativo e resolução de problemas, deslocando os estudantes para uma posição ativa nos processos de aprendizagem.

O livro organiza essas práticas como “receitas ecopedagógicas”. Longe de propor modelos, atua como um tempero para a educação: reúne caminhos possíveis, que podem ser experimentados, ajustados e recriados por diferentes escolas, a partir de seus próprios contextos e condições.

Ciência, escola pública e tecnologia social

A coletânea resulta de uma parceria interinstitucional entre o Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ), por meio do Laboratório de Divulgação Científica e Ensino de Ciências (Labdec), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por meio do Núcleo Interdisciplinar para o Desenvolvimento Social (Nides), e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por meio da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP), em colaboração com a Escola Municipal GET Pedro Ernesto, da Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura do Rio de Janeiro (SME/RJ). Essa articulação entre universidades, instituições de pesquisa e escola pública sustenta as experiências educativas apresentadas no livro, desenvolvidas com a participação de pesquisadores, docentes, estudantes e da comunidade escolar.

O livro, organizado por Yayenca Yllas, Gustavo Machado e Tatsuo Shubo foi viabilizado pelo Edital Terra 2030 — iniciativa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por meio da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030). O edital teve como objetivo apoiar ações e projetos que produzam conhecimento em diálogo com os movimentos sociais e representações da sociedade civil nos territórios, com foco no desenvolvimento de territórios sustentáveis, a partir da articulação entre educação, redução das desigualdades, saúde e bem-estar, contribuindo, complementarmente, para a promoção dos aspectos aspiracionais da Agenda 2030 e de seus ODS. 

Esse arranjo institucional evidencia o papel da horta como tecnologia social: uma solução construída de forma participativa, com potencial de reaplicação em outros contextos e voltada à transformação das condições de ensino e aprendizagem.

Outro aspecto relevante é o protagonismo infantil, que atravessa a prática e se estende ao livro. Ao incluir estudantes como autores do prefácio e ao dar visibilidade às suas experiências, a obra reconhece as crianças como sujeitos de produção de conhecimento, afirmando sua participação ativa nos processos educativos.

Do registro à linguagem audiovisual

O vídeo produzido como desdobramento do livro traduz essa experiência para a linguagem audiovisual. A partir da metáfora do sonho como semente, apresenta o percurso de construção da horta e sua consolidação como espaço de aprendizagem em diálogo com o território.

As chamadas “salas no verde” sintetizam essa proposta ao indicar a ampliação do espaço escolar para além da sala de aula tradicional, incorporando a horta como ambiente pedagógico.

Yayenca Yllas (2026)

Um modelo aberto

Disponível gratuitamente, o livro se dirige a educadores, pesquisadores e gestores interessados em práticas interdisciplinares e em educação socioambiental.

Assim, a publicação propõe um modo aberto de construção pedagógica, baseado na escuta, na participação e na relação com o território — elementos centrais para a inovação no âmbito da educação básica. Como em uma receita, não há medida única: são ingredientes que se combinam de diferentes formas, ganham novos temperos e se transformam conforme o contexto de cada escola.

https://efa2030fiocruz.org/livro-hortas-pedagogicas/

Mariana Morgado (2025)

Autoria:

Yayenca Yllas é mãe-pesquisadora, uruguaia, naturalizada brasileira, e vive no Rio de Janeiro desde 2013. Doutoranda em Ciência, Tecnologia e Educação pelo CEFET/RJ, integra o Laboratório de Divulgação Científica e Ensino de Ciências (Labdec). É mestra em Tecnologia para o Desenvolvimento Social pela UFRJ (NIDES) e formada em Pedagogia. Sua trajetória acadêmica foi reconhecida com três distinções no mestrado como egressa de destaque, pela relevância de sua dissertação e pelo artigo científico publicado em periódico do INEP evidenciando sua contribuição à educação pública e ao desenvolvimento social. É organizadora e autora do livro Hortas Pedagógicas: Receitas para cultivar a interdisciplinaridade nas escolas, no âmbito do Edital Terra 2030 da Fiocruz. Seu trabalho de pesquisa dedica-se à cocriação de práticas educativas que integram metodologias ativas e ecopedagogia, tendo a horta como laboratório vivo de aprendizagem, onde currículo, ciência e vida cotidiana se encontram. Por meio da pesquisa-ação, busca fortalecer experiências educativas comprometidas com a justiça social, a sustentabilidade e a valorização da escola pública.

Referências

RUFINO, Luiz. Vence-demanda: educação e descolonização. Mórula Editorial, 2021

YLLAS, Yayenca Frachia. A HORTA AGROECOLÓGICA COMO TECNOLOGIA SOCIAL EDUCATIVA. Uma pesquisa-ação junto à Escola Municipal Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro. 368 f. Dissertação (Mestrado Profissional em Tecnologia para o Desenvolvimento Social) — Núcleo Interdisciplinar para o Desenvolvimento Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro/RJ, 2023. Disponível em: http://nides.ufrj.br/images/PPGTDS/Dissertacoes/Ano_2023_-_13_-_Dissertacao_-_Yayenca_Yllas.pdf Acesso em: 5 abr. 2025




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