A educação científica nas periferias urbanas é mais que um objeto de pesquisa: é um movimento político, pedagógico e cultural que busca descentralizar a ciência dos grandes polos urbanos e torná-la acessível, significativa e transformadora para quem vive à margem das políticas públicas. É a ciência atravessando a cidade e chegando aonde historicamente não chegou.

O que significa falar de “periferia” quando falamos de ciência?
Na literatura internacional, principalmente a partir de 1985, surgiu o termo educação científica urbana (urban science education). Este termo é usado para falar da educação científica em regiões vulneráveis das grandes cidades, áreas marcadas pela violência, pela escassez de recursos e pela presença majoritária de populações negras, migrantes e latinas.
Mas aqui, “periferia” não é só a borda geográfica.
É um espaço social de exclusão, onde faltam oportunidades, mas sobram potências silenciadas.
No entanto, há duas formas de olhar para a periferia: como um lugar de carências ou como um território onde saberes e potências resistem, e podem (e devem) entrar na sala de aula. E é justamente esse contexto que passa a ser o centro da investigação científica, e não um cenário de fundo.

Em seu livro “Educação em Ciências Urbanas para a Geração Hip-Hop (Perspectivas Culturais e Históricas sobre a Educação Científica)”, Christopher Emdin mostra como sua trajetória em escolas urbanas — como aluno, professor, gestor e pesquisador — revelou uma forte conexão entre a cultura hip-hop e a aprendizagem em Ciências. Combinando autobiografia, estudos acadêmicos, teorias e relatos de estudantes, o autor explica por que muitos jovens da geração hip-hop têm baixo desempenho escolar: não por falta de capacidade, mas pela distância entre a escola tradicional e suas identidades culturais. O livro propõe que aproximar a ciência do hip-hop cria novas oportunidades de engajamento e pertencimento, tornando o ensino mais relevante e potente para esses estudantes.
E no Brasil? Um campo que ainda precisa crescer
Ao contrário da produção internacional, que discute esses temas há mais de 40 anos, o debate brasileiro sobre educação científica nas periferias ainda é escasso nos periódicos de alto impacto (Silva; Junior, 2020).
Uma das preocupações centrais, que se alinha com o compromisso de justiça social do campo, é a necessidade de documentar, descrever e transformar o cenário do ensino de ciências nas escolas e ambientes comunitários, para que os cidadãos da periferia recebam a devida atenção e a ciência esteja disponível para todos, expandindo suas oportunidades.
Dessa forma, a urgência aqui é dupla:
- Documentar o que acontece nas escolas e espaços comunitários das periferias;
- Transformar esse cenário com políticas e práticas que democratizem o acesso à ciência.
Se a ciência pretende ser um direito, ela precisa alcançar quem vive longe não só dos laboratórios, mas das condições básicas de permanência escolar.
Falar de educação científica nas periferias é falar de justiça social.
Levar a ciência para além dos muros das universidades não é caridade: é reconhecer que cidades mais justas se constroem quando todos têm acesso ao conhecimento que transforma vidas. Nesse campo, a pergunta não é apenas “como formar cientistas?”, mas “como garantir que todas as pessoas possam acessar e usar a ciência para ampliar suas oportunidades de vida?”.
Essa abordagem coloca no centro as identidades, as linguagens e os modos de vida dos estudantes, entendendo que aprender ciência também é disputar representações, poder e pertencimento. Nesse sentido, de acordo com Silva e Junior (2020), algumas características são fundamentais:
Ao reconhecer que as desigualdades se entrelaçam (identidade, gênero, raça, linguagem, território), a educação científica nas periferias assume o compromisso de tornar a ciência um bem público, capaz de fortalecer vidas e ampliar futuros possíveis. É nesse movimento que escolas se tornam mais vivas e cidades mais justas.
Quer aprender mais sobre esse tema? Saiba mais.


Autoras: Bruna Valle (Mestranda PPCTE/CEFET/RJ) e Mariana Vallis (Doutoranda PPCTE/CEFET/RJ)
Referências:
DA SILVA, Sullyvan Garcia; JUNIOR, Paulo Lima. A educação científica das periferias urbanas: uma revisão sobre o ensino de ciências em contextos de vulnerabilidade social (1985–2018). Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, p. 221-243, 2020.
TOBIN, Kenneth; ELMESKY, Rowhea; SEILER, Gale. Improving urban science education, new roles for teachers, students and researchers. USA: Rowman & Littlefield Publishers Inc., 2005, 346p.

