Educação científica nas periferias: quando a ciência atravessa a cidade e encontra novos caminhos

A educação científica nas periferias urbanas é mais que um objeto de pesquisa: é um movimento político, pedagógico e cultural que busca descentralizar a ciência dos grandes polos urbanos e torná-la acessível, significativa e transformadora para quem vive à margem das políticas públicas. É a ciência atravessando a cidade e chegando aonde historicamente não chegou.

Fonte: O Globo (2019). Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/mulheres-cientistas-devem-servir-de-modelo-para-estudantes-desde-ensino-fundamental-23869345?versao=amp

O que significa falar de “periferia” quando falamos de ciência?

Na literatura internacional, principalmente a partir de 1985, surgiu o termo educação científica urbana (urban science education). Este termo é usado para falar da educação científica em regiões vulneráveis das grandes cidades, áreas marcadas pela violência, pela escassez de recursos e pela presença majoritária de populações negras, migrantes e latinas.

Mas aqui, “periferia” não é só a borda geográfica.

É um espaço social de exclusão, onde faltam oportunidades, mas sobram potências silenciadas.

No entanto, há duas formas de olhar para a periferia: como um lugar de carências ou como um território onde saberes e potências resistem, e podem (e devem) entrar na sala de aula. E é justamente esse contexto que passa a ser o centro da investigação científica, e não um cenário de fundo.

Em seu livro “Educação em Ciências Urbanas para a Geração Hip-Hop (Perspectivas Culturais e Históricas sobre a Educação Científica)”,  Christopher Emdin mostra como sua trajetória em escolas urbanas — como aluno, professor, gestor e pesquisador — revelou uma forte conexão entre a cultura hip-hop e a aprendizagem em Ciências. Combinando autobiografia, estudos acadêmicos, teorias e relatos de estudantes, o autor explica por que muitos jovens da geração hip-hop têm baixo desempenho escolar: não por falta de capacidade, mas pela distância entre a escola tradicional e suas identidades culturais. O livro propõe que aproximar a ciência do hip-hop cria novas oportunidades de engajamento e pertencimento, tornando o ensino mais relevante e potente para esses estudantes.


E no Brasil? Um campo que ainda precisa crescer

Ao contrário da produção internacional, que discute esses temas há mais de 40 anos, o debate brasileiro sobre educação científica nas periferias ainda é escasso nos periódicos de alto impacto (Silva; Junior, 2020).

Uma das preocupações centrais, que se alinha com o compromisso de justiça social do campo, é a necessidade de documentar, descrever e transformar o cenário do ensino de ciências nas escolas e ambientes comunitários, para que os cidadãos da periferia recebam a devida atenção e a ciência esteja disponível para todos, expandindo suas oportunidades.

Dessa forma, a urgência aqui é dupla:

  • Documentar o que acontece nas escolas e espaços comunitários das periferias;
  • Transformar esse cenário com políticas e práticas que democratizem o acesso à ciência.

Se a ciência pretende ser um direito, ela precisa alcançar quem vive longe não só dos laboratórios, mas das condições básicas de permanência escolar.

Falar de educação científica nas periferias é falar de justiça social.

Levar a ciência para além dos muros das universidades não é caridade: é reconhecer que cidades mais justas se constroem quando todos têm acesso ao conhecimento que transforma vidas. Nesse campo, a pergunta não é apenas “como formar cientistas?”, mas “como garantir que todas as pessoas possam acessar e usar a ciência para ampliar suas oportunidades de vida?”.

Essa abordagem coloca no centro as identidades, as linguagens e os modos de vida dos estudantes, entendendo que aprender ciência também é disputar representações, poder e pertencimento. Nesse sentido, de acordo com Silva e Junior (2020), algumas características são fundamentais:

  • Identidade científica

    A identidade científica vai além do domínio de conteúdos: envolve sentir-se capaz, ser reconhecido pelos outros e reconhecer-se como alguém que pode produzir conhecimento.

  • Linguagem

    A linguagem, especialmente em contextos multilíngues, pode ser barreira, mas também ponte: práticas colaborativas, como atividades em pequenos grupos, ampliam o engajamento e ajudam a aproximar estudantes da cultura científica.

  • Gênero e multiculturalismo

    Questões de gênero e multiculturalismo mostram que o currículo precisa considerar as meninas, diferentes crenças e a diversidade cultural desses territórios, evitando que a escola reforce desigualdades históricas.

  • Aspirações científicas

    Já em relação às aspirações científicas, o desejo de seguir carreira em STEM não varia por gênero ou etnia. No entanto, são fortemente atravessadas pela condição socioeconômica, o que revela o impacto direto das desigualdades urbanas na relação com o conhecimento.

  • Transformação social e democracia

    A sala de aula, nesse contexto, deve ser um espaço de transformação social e democracia, onde professores, estudantes e comunidades constroem relações mais horizontais e fortalecem sua capacidade de intervenção no mundo.

  • Reforma curricular

    Isso exige também uma reforma curricular, com práticas que dialoguem com a vida real dos estudantes e valorizem a confiança, o cuidado e o respeito. Assim, a ciência deixa de ser apenas um conjunto de conteúdos e se torna um recurso de leitura e ação sobre a realidade.

Ao reconhecer que as desigualdades se entrelaçam (identidade, gênero, raça, linguagem, território), a educação científica nas periferias assume o compromisso de tornar a ciência um bem público, capaz de fortalecer vidas e ampliar futuros possíveis. É nesse movimento que escolas se tornam mais vivas e cidades mais justas.

Quer aprender mais sobre esse tema? Saiba mais.

Autoras: Bruna Valle (Mestranda PPCTE/CEFET/RJ) e Mariana Vallis (Doutoranda PPCTE/CEFET/RJ)

Referências:

DA SILVA, Sullyvan Garcia; JUNIOR, Paulo Lima. A educação científica das periferias urbanas: uma revisão sobre o ensino de ciências em contextos de vulnerabilidade social (1985–2018). Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, p. 221-243, 2020.

TOBIN, Kenneth; ELMESKY, Rowhea; SEILER, Gale. Improving urban science education, new roles for teachers, students and researchers. USA: Rowman & Littlefield Publishers Inc., 2005, 346p.

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