A Ciência costuma ser lembrada por grandes descobertas e avanços tecnológicos que transformam a sociedade. No entanto, por muito tempo, a participação das mulheres nesse processo recebeu pouca visibilidade.
O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 08 de março, surge como um momento para lembrar as lutas que as mulheres enfrentaram, e ainda enfrentam, para ocupar seu espaço em diferentes áreas da sociedade, especialmente em campos historicamente marcados por desigualdades de gênero, como a Ciência.
Mas afinal: é um dia para comemorar ou para reivindicar?
Mesmo tendo contribuído de forma fundamental para o desenvolvimento de diferentes áreas do conhecimento, muitas cientistas enfrentaram e ainda enfrentam barreiras para acessar a educação, os espaços de pesquisa e o reconhecimento por suas descobertas. Refletir sobre a presença das mulheres na Ciência é, portanto, também reconhecer essas trajetórias, valorizar suas contribuições e questionar as desigualdades que ainda persistem no campo científico.

Nas últimas décadas, esse cenário começou a mudar. O número de mulheres nas universidades e nos centros de pesquisa aumentou, e suas contribuições passaram a aparecer com mais frequência. Ainda assim, algumas desigualdades persistem, especialmente quando se observa a presença feminina em cargos de liderança, na coordenação de grandes projetos e no acesso a recursos para financiamento de pesquisas.
A presença de mulheres na Ciência vai muito além da participação em laboratórios e universidades. Ela representa também a superação de estigmas históricos que, por muito tempo, associaram a produção científica quase exclusivamente aos homens e reforçaram a ideia de que ciência não seria um espaço para mulheres. No entanto, ao longo das décadas, muitas cientistas desafiaram essas barreiras e abriram caminhos para novas gerações.
Nesse contexto, quando se fala em mulheres na Ciência, algumas figuras históricas se tornaram símbolos dessa trajetória de resistência e conquista. Entre elas estão Marie Curie, pioneira nos estudos sobre radioatividade e a primeira pessoa a receber dois Nobel Prize em áreas científicas diferentes (Física e Química), e Bertha Lutz, bióloga brasileira que também se destacou como importante ativista pelos direitos das mulheres. Suas trajetórias ajudaram a ampliar a presença feminina na ciência e continuam inspirando muitas meninas que sonham em seguir carreira científica.
No entanto, a presença dessas grandes cientistas pode criar a impressão de que a desigualdade de gênero na ciência ficou no passado. A realidade, porém, mostra que a busca por equidade de gênero nesse campo ainda é um desafio atual e relevante.
E a representatividade no Brasil?
No contexto brasileiro, ser mulher e seguir carreira científica ainda pode ser entendido como um ato de resistência. Muitas meninas cresceram sem referências femininas na Ciência e ouvindo, direta ou indiretamente, que esse não era um lugar para elas. Assim, ocupar esses espaços significa não apenas produzir conhecimento, mas também romper com estigmas sociais, ampliar a representatividade e inspirar outras jovens a enxergar na ciência um caminho possível.
Além de superar esses estigmas históricos, ser mulher cientista no Brasil envolve desafios adicionais. Isso porque, no país, a produção científica muitas vezes ainda enfrenta falta de reconhecimento, investimento e valorização. Nesse cenário, muitas pesquisadoras precisam lidar não apenas com as desigualdades de gênero, mas também com as dificuldades estruturais da própria Ciência brasileira.
Um exemplo é o da pesquisadora Tatiana Sampaio, que desenvolve pesquisas relacionadas às poliaminas e suas aplicações científicas. Histórias como a dela evidenciam que, apesar das dificuldades, muitas cientistas brasileiras continuam produzindo conhecimento relevante e contribuindo para o avanço da Ciência.
Uma cientista brasileira em destaque: Tatiana Sampaio
A bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem se destacado por suas contribuições na área da biologia e da medicina regenerativa. Há mais de duas décadas, ela se dedica ao estudo de proteínas presentes na matriz extracelular e ao seu papel na regeneração do sistema nervoso.
Sua pesquisa ganhou grande visibilidade por causa do desenvolvimento da polilaminina, uma substância derivada da proteína laminina que pode estimular o crescimento de neurônios e contribuir para a regeneração de tecidos nervosos. Estudos experimentais indicam que essa molécula pode ajudar na recuperação de lesões da medula espinhal, um dos grandes desafios da medicina regenerativa.
Em 2026, o trabalho da pesquisadora passou a chamar ainda mais atenção quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou o início da fase inicial de testes clínicos em humanos para avaliar a segurança do uso da substância.
Apesar do potencial científico da descoberta, a trajetória da pesquisa também revela alguns dos desafios enfrentados por cientistas no Brasil. Em entrevistas recentes, Tatiana relatou que a falta de recursos para pesquisa impactou diretamente o desenvolvimento da tecnologia. Segundo ela, cortes orçamentários em universidades federais impediram a manutenção da patente internacional da polilaminina.
Em entrevista ao podcast: The Business of Life, Tatiana Sampaio destacou que o processo para obtenção da patente da tecnologia levou cerca de doze anos e foi marcado por dificuldades para conseguir insumos e apoio para o avanço dos estudos. Em outras reportagens, a cientista também contou que chegou a arcar pessoalmente com parte dos custos para evitar a perda da patente no Brasil, pagando as taxas por um período com recursos próprios.
Saiba mais em: https://braziljournal.com/tatiana-sampaio-sobre-a-pesquisa-que-pode-reverter-lesoes-na-medula-achavam-que-era-cloroquina/
Casos como o de Tatiana Sampaio ajudam a ilustrar que, além da dedicação científica, a produção de conhecimento depende de políticas de financiamento, infraestrutura e apoio institucional. Ao mesmo tempo, sua trajetória mostra a relevância das universidades públicas e do trabalho de pesquisadoras brasileiras no avanço da ciência.
“Uma das consequências positivas no meu trabalho até aqui é o fato de que é um case que está dando visibilidade à pesquisa no Brasil.”
Tatiana Sampaio
Autoras: Julia Costa Caleiras – Graduanda em Engenharia Ambiental (CEFET/RJ) / Iniciação Científica / E-mail: costacaleirasj@gmail.com
Camila Oliveira – Graduanda em Engenharia Ambiental (CEFET/RJ) / Iniciação Científica / E-mail: cams271005@gmail.com
Referências:
SILVA, Fabiane Ferreira da; RIBEIRO, Paula Regina Costa. Trajetórias de mulheres na ciência: “ser cientista” e “ser mulher”. Ciência & Educação, Bauru, v. 20, n. 2, p. 449–466, 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ciedu/a/wNkT5PBqydG95V9f4dJH4kN/.
ESCAVADOR. Tatiana Lobo Coelho de Sampaio. Escavador, 2026. Disponível em: https://www.escavador.com/sobre/2020464/tatiana-lobo-coelho-de-sampaio. Acesso em: 7 mar. 2026.
FORBES. Tatiana Sampaio: a cientista por trás da descoberta que pode devolver movimentos a humanos. Forbes Brasil, 19 fev. 2026. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-mulher/2026/02/tatiana-sampaio-a-cientista-por-tras-da-descoberta-que-pode-devolver-movimentos-a-humanos/. Acesso em: 7 mar. 2026.
MODESTO, Hemaise Antunes; NASCIMENTO, Wilson Elmer. Trajetórias de mulheres na ciência: refletindo sobre questões de gênero na educação básica. Revista Dynamis, Blumenau, v. 31, e12340, 2025. Disponível em: https://ojsrevista.furb.br/ojs/index.php/dynamis/article/download/12340/6385. Acesso em: 6 mar. 2026.






