
Imagine um mundo onde uma prótese de mão, que custa mais de 38 mil reais, possa ser produzida por menos de 200 reais. Onde uma órtese de tornozelo não seja um dispositivo genérico e desconfortável, mas sim uma peça perfeitamente adaptada à anatomia do usuário. Onde uma criança que perdeu um membro possa ter uma nova prótese em dias, e não em meses, acompanhando seu crescimento sem pesar no bolso da família. Esse mundo não é ficção científica. É a realidade que a impressão 3D está construindo agora.
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 2,5 bilhões de pessoas precisam de ao menos um produto de assistência, como cadeiras de rodas, aparelhos
auditivos, próteses ou órteses. No entanto, o acesso a esses dispositivos ainda é um privilégio para poucos. Globalmente, 1,5 bilhão de pessoas sofrem de perda auditiva, mas a produção de aparelhos auditivos atende a menos de 10% da demanda. Dos 80 milhões que necessitam de cadeira de rodas, apenas 5% a 35% têm acesso a uma, dependendo do país.
Segundo o Censo 2022, há 14,4 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, o que equivale a 7,3% da população. Para muitas delas, o acesso à tecnologia assistiva ainda é
um desafio significativo, seja pelo custo elevado, pela falta de personalização ou pela demora na produção.
É nesse cenário que a manufatura aditiva, mais conhecida como impressão 3D, surge como uma ponte entre a necessidade e a solução.
Personalização que respeita o corpo
Diferentemente dos métodos convencionais, que produzem órteses e próteses de forma padronizada, a impressão 3D permite criar dispositivos sob medida. Um estudo desenvolvido na Fatec Jahu comparou três técnicas de digitalização 3D para a produção de uma órtese para membros inferiores e um calçado adaptado a ela (Santos, 2024). A conclusão foi que o modelo digital mais eficiente veio da tomografia computadorizada combinada com um script gratuito em Python. Embora o exame ainda tenha custo elevado, o software livre representa um avanço.

A pesquisa também destacou um problema comum: órteses convencionais muitas vezes são abandonadas por falta de conforto, inadequação anatômica e até por questões estéticas. O uso de órteses com meias em sandálias femininas, por exemplo, gera desconforto térmico e dificuldade de combinação visual. Ao permitir maior liberdade de design e melhor interação com o corpo, a impressão 3D pode reduzir o abandono e melhorar a adesão ao tratamento.
Enquanto órteses convencionais muitas vezes são abandonadas por falta de conforto e inadequação anatômica, a impressão 3D oferece uma nova perspectiva. “Possibilita autonomia na confecção e ajustes, podendo ser moldada e adaptada às necessidades específicas de cada indivíduo a qualquer tempo”, destaca Sandra Helena Moura, terapeuta ocupacional do INTO. Saiba mais em: https://www.into.saude.gov.br/area-de-imprensa/noticias/741-impressora-3d-inicia-nova-fase-com-proteses-para-adultos
Próteses biônicas: da sala de cirurgia à periferia
Rocha (2025) analisa o impacto da impressão 3D na produção de próteses biônicas sob a perspectiva dos direitos fundamentais. Enquanto uma prótese tradicional pode custar a partir de 38 mil reais e levar semanas para ficar pronta, uma prótese impressa custa entre 200 e 2.000 reais e pode ser produzida em horas ou dias. A diferença não é apenas econômica, mas também ética.
A autora reitera que a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) e a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (Decreto nº 6.949/2009) determinam que o Estado deve promover o acesso a tecnologias assistivas acessíveis e de baixo custo. A impressão
3D, portanto, não é apenas uma inovação tecnológica: é um instrumento de cidadania.
Iniciativas como o movimento internacional e-NABLE, que reúne voluntários para produzir e doar próteses de membros superiores impressas em 3D, e a startup brasileira Regenera, sediada em Curitiba, mostram que é possível unir ciência, inclusão e design.

O caso do jabuti que perdeu 85% do casco em um incêndio no cerrado e recebeu uma prótese impressa em 3D (CNN Brasil, 2023) é um exemplo curioso, mas poderoso, da versatilidade da tecnologia. Saiba mais em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/jabuti-atingido-por-incendio-ganha-novo-casco-feito-em-impressora-3d/
Além das próteses: adaptações cotidianas
A impressão 3D também está transformando o dia a dia de pessoas com deficiência por meio de pequenas, mas importantes adaptações. A organização canadense Neil Squire Society, através do projeto Makers of Change, oferece uma biblioteca aberta de dispositivos de assistência, desde cabos personalizados para talheres até suportes para tablets.

Nos Estados Unidos, a MakeGood projeta cadeiras de rodas acessíveis para regiões com poucos recursos. Como no exemplo de Emery, que nunca teve a oportunidade de mobilidade e independência, até que ela e seus pais trabalharam com a MakeGood para prototipar o Treinador de Mobilidade para Crianças, tanto em madeira quanto impresso em 3D! Agora ela pode se mover com autonomia e elegância, seja em casa ou na escola. Saiba mais em: https://makegood.design./
Maçanetas, interruptores, controles remotos e utensílios de cozinha podem ser redesenhados e impressos sob medida para pessoas com mobilidade reduzida nas mãos. Aparelhos auditivos personalizados e mapas táteis para pessoas com deficiência visual já são realidade, produzidos com mais rapidez e a um custo muito menor. No campo das cadeiras de rodas, a impressão 3D permite criar assentos moldados aos contornos exatos do corpo, reduzindo pontos de pressão e melhorando a postura. Apoios para os pés, braços, suportes para dispositivos eletrônicos e soluções de armazenamento também podem ser customizados.
O que ainda falta?
Apesar dos avanços, os desafios permanecem. A pesquisa da Fatec Jahu apontou que, das três técnicas de digitalização testadas (tomografia, sensor Kinect e fotogrametria com câmera), a mais precisa foi a tomografia, mas seu custo ainda é elevado. Por ser de baixo custo, o Kinect mostrou-se uma alternativa viável, embora apresente limitações na captura do ângulo ideal do tornozelo em pacientes com deformidades.
Do ponto de vista legal, Rocha (2025) alerta que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda não possui regulamentação específica para próteses fabricadas por impressão 3D, o que gera insegurança jurídica e dificulta sua integração ao Sistema Único de Saúde (SUS). Além disso, as desigualdades regionais no Brasil limitam o acesso à infraestrutura necessária, como impressoras, filamentos de qualidade, energia estável e capacitação técnica, especialmente em áreas rurais e periféricas.
A durabilidade dos materiais também é uma questão. O PLA, um dos filamentos mais comuns e biodegradáveis, tem menor resistência que os polímeros médicos usados em próteses tradicionais, exigindo substituições mais frequentes.
O futuro é personalizado, acessível e sustentável
Ao abraçarmos as possibilidades da impressão 3D, podemos continuar a expandir os limites do possível, criando um mundo onde dispositivos adaptativos não sejam apenas funcionais, mas também personalizados para as necessidades únicas de cada indivíduo. Isso torna a inclusão não apenas viável, mas inevitável.
Como destacam os estudos, o uso de metamateriais, estruturas cujas propriedades mecânicas são definidas pela geometria em vez da composição química, poderá futuramente permitir que um mesmo material base (como o PLA) seja usado para produzir desde partes rígidas até regiões flexíveis na mesma órtese ou prótese, o que pode aumentar o conforto e a eficácia.
A impressão 3D não substituirá completamente a medicina convencional ou a ortopedia tradicional. Mas, para milhões de pessoas, que hoje estão à margem do acesso a tecnologias assistivas, ela representa algo maior que uma inovação: representa a volta da autonomia, da autoestima e da participação social.
E isso, sim, é tecnologia a serviço da vida.
Autores: Arthur Ferreira Teixeira – Graduando em Engenharia Ambiental (CEFET/RJ) /Iniciação Científica / E-mail: arthurferreirat@gmail.com
Lean Gabriel – Graduando em Engenharia Ambiental (CEFET/RJ) / Iniciação Científica / E-mail: lean.silva@outlook.com
Ryan Alves da Silva – Graduando em Engenharia Ambiental (CEFET/RJ) / Iniciação Científica / E-mail: ryanalves12387@gmail.com
Referências
BERNARDES, Vinícius. Jabuti atingido por incêndio ganha novo casco feito em impressora 3D. CNN Brasil, São Paulo, 2023. Disponível em:
https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/jabuti-atingido-por-incendio-ganha-novo-casco-feito-em-impressora-3d/. Acesso em: 4 maio 2026.
BRASIL. Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009. Promulga a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2009. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm. Acesso em: 2 maio 2026.
BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2015. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm. Acesso em: 2 maio 2026.
IBGE. Censo 2022: Pessoas com deficiência. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Rio de Janeiro, 2025. Disponível em: https://www.ibge.gov.br. Acesso em: 2 maio 2026.
INTO. Impressora 3D inicia nova fase com próteses para adultos. Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, Rio de Janeiro, 2020. Disponível em: https://www.into.saude.gov.br/area-de-imprensa/noticias/741-impressora-3d-inicia-nova-fase-com-proteses-para-adultos. Acesso em: 5 maio 2026.
MAKEGOOD. MakeGood INC: Free 3D Printed Assistive Devices. MakeGood, 2026. Disponível em: https://makegood.design. Acesso em: 3 maio 2026.
MAKERS MAKING CHANGE. National AccessAbility Week: assistive technology library. Makers Making Change / Neil Squire Society, 2026. Disponível em: https://www.makersmakingchange.com. Acesso em: 5 maio 2026.
NEIL SQUIRE SOCIETY. Neil Squire Society: empowering people with disabilities through technology. Neil Squire Society, 2026. Disponível em: https://www.neilsquire.ca. Acesso em: 5 maio 2026.
ROCHA, Ana Carolina Dantas. Inovação, acessibilidade e sustentabilidade: a impressão 3D de próteses biônicas como direito das pessoas com deficiência. Anais [do evento], p. 667-682, 2025.
SANTOS, R. M. Produto multifuncional calçado e órtese: comparação entre desenvolvimento com procedimento industrial convencional e prototipagem rápida em impressora 3D. Anais da VII Mostra de Docentes em RJI, p. 1-8, 2024.
